“HAJA DEDICAÇÃO AO MINISTÉRIO”
Entrevistadores - Irmão Elienai, esta é a Primeira Escola Bíblica de Obreiros do Ministério Vale das Virtudes. Havia uma grande expectativa em relação à Escola, e em relação aos preletores. Era especial a expectativa sobre o irmão, então nossa pergunta é: Quem é Elienai Cabral?
Pr. Elienai – É difícil falar de si mesmo, senão por uma identificação simples. Sem ser hipócrita, me considero um servo idealista. O que quero dizer com isso? Eu persigo um ideal, não me prendo a valores de ostentação, de nomes, funções, mas o idealismo de ser um pregador autêntico, comprometido com a Palavra e automaticamente um ensinador, que é o lado maior do meu ministério nos últimos dias. Ensino, sobretudo nas escolas bíblicas do Brasil.
Considero-me um filho do estado de Santa Catarina, filho de pastor, já falecido há alguns anos, que foi enfermeiro naquele estado e no Paraná e pregador conhecido em todo Brasil. Mantenho os valores vitais sem ser um retrógrado, acredito que o ministro pode manter os fundamentos da sua fé e sempre estar disposto a aprender e se contextualizar com a realidade da igreja de hoje. Este tem sido o meu papel.
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| Pr. Elienai Cabral |
Entrevistadores – O Sr. falou de infância, queremos saber como filho de pastor pioneiro qual foi a maior dificuldade que o Sr. passou por causa dessa condição?
Pr. Elienai – Naturalmente, eu poderia dizer muita a respeito do papel de filho de pastor e as dificuldades que enfrentei. Eu acredito que fui feliz tendo pais preocupados em manter a mim e a meus irmãos nos princípios bíblicos. O que prevaleceu para eu ser o que sou hoje foi o testemunho cristalino da vida do meu pai, pr. Osmar Cabral.
Ele foi um homem idealista, cuja paixão maior era pregar e ensinar a Palavra, ele não foi voltado para a vida material, tanto é que morreu com um apartamento pequeno, pobre após mais de 50 anos de ministério.
Ele se dedicou nos últimos anos de vida a trabalhar com Bernard Johnson para despertar no Brasil o sentimento pelo estudo. Ele lançou a maioria dos núcleos da ETAD (Escola Teológica das Assembléia de Deus, com sede em Campinas) no Brasil.
Eu faço parte dela, que teve como fundador o pr.Bernard Johnson, tenho livros escritos, minha esposa também e até hoje integro o Conselho Administrativo e sou Secretário Nacional. Mas minha infância como filho de pastor teve as dificuldades próprias, havia a vocação desde menino. Na adolescência tive frustrações e traumas que passei vendo o sofrimento do meu pai, por causa disso, decidi não ser pastor, nunca desisti de ser crente, mas também não seria pastor.
Então me dediquei à música, fui maestro tocava quatro instrumentos, hoje toco bem campainha (risos...), fiz várias atividades, até que Deus então me chamou de maneira especial, então me dediquei ao ministério.
Entrevistadores – Há um atrito entre o evangelismo e a área da música porque é preciso tempo para ensaiar e evangelizar. O Sr. tem algo a nos dizer nesse sentido?
Pr. Elienai – Não. As minhas dificuldades não foram nesse campo. Sempre entendi que deve haver uma perfeita harmonia entre música e Palavra. Não sou muito favorável às idéias que afirmam “aqui é só Palavra que manda, música é secundária!” Eu não vejo a música como sendo secundária, ela é uma arte que deve ser aprimorada e um ministério que faz parte da liturgia da igreja. Então a Palavra tem o seu lugar tanto quanto a música, nenhuma pode ser demasiadamente, uma igreja não vive só de Palavra, como também não vive só de música.
Havendo equilíbrio entre ambos a igreja cresce muito melhor. Além disso, a bíblia diz: “Se é ministrar haja dedicação ao ministério”, e a palavra ministrar significa servir, vem do grego diakoniai, daí surge diaconia, diácono (é o que serve), diaconia (é o serviço em si), mas diakoniai tem um sentido de serviços especiais. Paulo falou que há diversidades de dons, ministérios e operações.
Entrevistadores – Fale-nos um pouco sobre sua formação secular.
Pr.Elienai – Eu fiz Jornalismo posteriormente e o meu curso foi bem diferente do que vocês podem imaginar. Eu não fiz uma faculdade de jornalismo. Eu já era escritor e fui aceito numa escola famosa no Rio de Janeiro, cujo presidente era o Doutor João Austragésimo de Ataíde, irmão do que havia sido presidente da Academia Brasileira de Letras, que foi meu professor também.
Nesta escola só tinha nomes de destaque. Eles aceitaram o meu currículo, os meus materiais, me viram como jornalista. Mas a minha formação maior é bíblico-teológica. Comecei em Pindamonhangaba e não parei no tempo. Tive que me aprimorar fiz muitos cursos como, Lingüística Bíblica, Teologia Pastoral, Psicologia, Psicoterapia e todas essas áreas, mas me dedique mais à área teológica porque é a área que me atrai,e a maioria dos meus escritos sempre são nesta área. Como pregador, sou mais devocional, mas como ensinador, gosto mais de abordar assuntos assim.
Entrevistadores – Quantas lições da Escola Dominical o senhor já escreveu?
Pr Elienai – Eu escrevo desde 1985. Mais antigo do que eu, na escrita das lições só tem o pastor Antonio Gilberto. Os outros vieram anos depois. Eu já perdi a conta de quantas lições já escrevi. Porque houve um período que escrevíamos uma revista por ano. Eram 4 comentadores. Hoje temos 6. Então está levando um pouquinho mais de tempo. A última que escrevi foi sobre a igreja e a sua missão, que teve grande repercussão no Brasil. Foi uma lição simples e objetiva. Já escrevi cerca de 12 a 15 revistas.
Entrevistadores - E quanto a livros?
Pr Elienai Cabral - Já escrevi nove livros pela CPAD, todos na área teológica. O livro que mais se aproximou do devocional, acredito que foi o livro sobre Abraão, pois desenvolvi mais o lado humano de Abraão do que o lado místico que geralmente é explorado na maioria dos livros como “Pai Abraão”. O livro mostra um homem identificado conosco, homem de barro, homem com falhas de caráter, homem com problemas de ordem psicológica, mas um homem que venceu e serve de exemplo.
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Entrevistadores e Pr. Elienai Cabral |
Entrevistadores - O tema da nossa 1ª Escola Bíblica de Obreiros diz que “o obreiro deve apresentar-se a Deus aprovado como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja bem a palavra da verdade.” O senhor concorda ou não que a cada dia o público em geral, ouvinte da Palavra de Deus, torna-se mais exigente em relação aos tipos e a qualidade das mensagens pregadas nos púlpitos, fazendo que a última parte do versículo “maneja bem a palavra da verdade.” seja uma necessidade atual?
Pr Elienai – Concordo plenamente. E é fácil perceber isto. Você nota: se o pregador tem conteúdo e maneja bem, o povo pára pra ouvir. Se não tem, o povo grita bastante, faz barulho. Não tem outra coisa para fazer. Não tem que pensar muito.
Cada auditório tem sua característica. Tem auditório acostumado àquele tipo de mensagem “água com açúcar”, com todo o respeito. Se pegar o conteúdo da mensagem, é igual algodão doce. É bonito, grande, colorido, mas quando coloca na boca desaparece. Agora, quando os pregadores têm conteúdo, seriedade e a igreja percebe isso ela pára pra ouvir.
Ela só não o fará se estiver mal habituada, pois, há certa tendência à preguicite espiritual no povo para ouvir a Palavra. Por exemplo, na mensagem de ontem (refere-se à mensagem que pregou no culto à noite sobre o profeta Jonas: “Na Contra Mão de Deus”) tentei dosar e evitei usar certos termos que estou habituado, não por presunção ou exibição, mas por não conhecer bem o auditório, mas percebi o povo parado para ouvir. E quando o povo ouve também responde, vimos isso no final da mensagem. Às vezes, o auditório fica meio assustado por causa de estilo, linguagem e formas de apresentar, pois, isso também é um choque cultural.
Muitas vezes tenho dificuldades para pregar em algumas igrejas, eu não me acho melhor que ninguém e procuro pregar com simplicidade, mas gosto de levar o povo ao fundo, faze-los parar para raciocinar, refletir e levar para a vida deles. A palavra manejar aparece no original grego como “ortotobom”, a idéia é cortar retamente, sugere que aquele que usa espada tem que saber usá-la. Também dá idéia do pai que divide o pão para a família, e para não cometer injustiça ele corta bem, com igualdade.
Então o ato de manejar implica habilidade, conhecimento mínimo que todo pregador devia ter, sobretudo os que têm oportunidade de estudar e conhecer um pouco de homilética, isso é fundamental. Eu sou um pregador que prego homileticamente, começo num ponto e termino em outro falando do mesmo assunto.
Um sermão tem que ter uma ordem crescente, vem do negativo para o positivo, são aquelas regras básicas que até ensino no meu livro O Pregador Eficaz (há 25 anos a Casa Publicadora vende este livro para as escolas teológicas). O livro ensina como o pregador escolhe um título, como fazê-lo, como elabora a introdução da mensagem, a sua organização, a ordem lógica, cronológica, o texto e a organização geral.
Há pessoas que têm uma habilidade enorme para falar e um vocabulário lindo, mas quando vai pregar faz uma salada, no fim ninguém sabe o que ele pregou. Eu sou um pregador que anuncio o título da mensagem que vou pregar, o que é o título? É o endereço que damos para o povo seguir. Às vezes, o preletor não dá título, começa a falar e a igreja fica perdida não sabendo o que ele quer. Para os irmãos que são jovens e desejam o ministério da Palavra é fundamental buscar e desenvolver as habilidades aprimorando, nunca se conformando.
Eu nunca me conformo com o que preguei, sempre acho que poderia ter falado melhor, pastoreio uma igreja há 20 anos e há poucos dias uns irmãos reunidos falavam sobre pregação e um deles disse que congrega há 20 anos lá e nunca me viu repetir uma mensagem, isso me deixou feliz. Eu sempre tenho algo novo, com isso a responsabilidade aumenta, eu preciso entender que não sou tão bom assim e estudar e buscar.
Entrevistadores - Então para suprir esta exigência natural e crescente do povo o Sr. aconselha aos pregadores e aos obreiros a dedicação ao estudo sistemático da teologia?
Pr Elienai - Sim. Precisa estudar sistematicamente, ter cuidado, separar as coisas. O grande segredo é começar bem. Isso significa começar entendendo os fundamentos daquilo em que se crê. Quando a pessoa não tem esta base, se torna muito suscetível às várias idéias e teologias, porque não sabe como refutar, assim qualquer idéia ela acha que é boa. Eu iniciei, tendo como modelo meu pai, ele tinha uma boa biblioteca.
Comecei a fazer a minha própria biblioteca com 17 anos de idade. Depois fui para o instituto bíblico, passaram-se 40 anos e a maior sala da minha casa é o meu escritório. Nele há estantes enormes cheias de livros, há mais de 8 mil volumes. Ora, é para exibir, para enfeitar prateleiras? Não! São livros de pesquisas e estudos. Eu sou um pastor que me dedico ao estudo, trabalho até a madrugada toda noite, quando estou em casa.
Eu não trouxe meu Notebook pra cá, mas normalmente trago para trabalhar nas horas vagas em textos novos e artigos que escrevo. Ora, para fazer tudo isso eu paguei um preço e ainda pago, porque tenho uma igreja que, se eu começar a decair na forma de falar, ela vai estranhar: “O que está acontecendo com nosso pastor? Será que está doente?”. Então preciso dar um tratamento especial, porque a igreja se habituou.
Então, tenho sempre essa idéia: quem prega bem uma vez, precisa lembrar que da próxima vez terá que pregar melhor, de igual para melhor, nunca pior. Digo isso como um estímulo para mostrar que ninguém é tão bom ou sabidão a ponto de não precisar estudar e pagar o preço. Hoje, pela misericórdia de Deus, digo com toda humildade, o ministério que tenho é o fruto não de um sucesso barato, mas de um trabalho duro e continuado. Por isso, em qualquer canto desse país que o irmão for me conhecem, quer pelos livros ou por pregações.
Acho que pelo menos nas últimas 10 ou15 convenções gerais, parece que somente em uma ou duas não preguei no culto principal. Mesmo assim falei para as lideranças nos estudos. Sabe como se conquista isso? Com muita dureza, com o suar das mãos. Eu ainda suo nas mãos, ainda fico nervoso, tenho medo quando estou muito seguro de mim, aprendi muito cedo que dependo de Deus para pregar, mas humanamente pago o preço. Se o irmão for ao hotel onde estou, vai ver vários livros, mesmo não tendo tempo de estudar. É natural eu chegar tarde, cansado e ainda ler algo, tomar notas e daí surgir novas mensagens.
Entrevistadores – Quando o irmão notou que a chamada e não podia fugir dela, foi se preparar no instituto bíblico, na faculdade de jornalismo e outros. Se um jovem perceber que tem uma chamada, ele deve primeiro cursar teologia ou procurar formação secular?
Pr. Elienai – Se o jovem tem uma chamada específica, a primeira coisa é procurar o pastor e dizer: “pastor, eu tenho uma chamada, quero trabalhar na obra e preciso me preparar.” Foi o que eu fiz. Eu cresci na igreja, pregava desde pequeno, mas sabia que não era suficiente. Fui ao instituto bíblico numa época que era pecado ir para escola teológica.
Fui contra vontade de todos os pastores, só o meu pai me apoiava. Quando voltei à Santa Catarina, após o primeiro ano de faculdade, puseram-me diante da Convenção do estado para pregar. Eles diziam: “Vamos ver se esse moço tem alguma coisa. Porque ele veio da fábrica de pastores!” O Espírito de Deus foi muito bom comigo, eu não me lembro o que falei, só sei que agradou e a partir de então os pastores foram enviando os filhos e os jovens para o instituto.
Assim, a porta se abriu para outros estudarem nos tempos áureos de Pindamonhangaba, hoje já não é mais tanta coisa, mas até início dos anos 90, ali se produziu os maiores pregadores e ensinadores do Brasil. Os dois anos que passávamos lá equivaliam aos quatro anos do bacharel hoje. Era dureza, estudávamos a Bíblia noite e dia e levávamos uma vida espiritual, não era apenas assimilação de conhecimentos teológicos e seculares, ali se procurava desenvolver a chamada. Quando voltei para Santa Catarina, cheguei à convenção e alguém propôs, não foi meu pai: “Esse moço precisa ser consagrado”, houve retruca: “Mas, ele é muito novo, solteiro”, porém veio o argumento final: “mas, ele tem uma chamada, vamos arriscar”.
Eu louvo a Deus que eu fui a porta para vários jovens que foram consagrados. Logo fui convidado pelo pr. Bernard Johnson para integrar a sua equipe de evangelismo, fui membro fundador da Cruzada das Boas Novas no Brasil e trabalhei 10 anos com pr. Bernard. Indiscutivelmente isso alargou minhas oportunidades, fiquei conhecido no país como pregador, gostava de cantar e gravei 5 trabalhos muito conhecidos , fiz programa de rádio e tudo mais que me veio à mão. Sempre tendo postura de muito respeito aos pastores, nunca briguei ou discuti com qualquer deles e jamais os critiquei. Havia coisas eu achava absurdas, mas sempre tive o pensamento: “Vou cumprir o meu papel!” Então sobrevivo até hoje como pregador no país inteiro e nunca ninguém me ouviu falar sobre roupa, cabelo, jóias ou costumes locais e temporais.
Entrevistadores – O irmão falou sobre Pindamonhangaba como referência em formação de obreiros até início dos anos 90, nós ainda temos centros de excelência em Teologia?
Pr. Elienai – Sim, temos. Mas, há imitações baratas por aí. Há escolas teológicas que não correspondem no que deveriam.
Entrevistadores - Qual seria o critério para conhecermos as escolas teológicas?
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| Prs. Elienai Cabral e Silas Alves |
Pr. Elienai – É preciso conhecer as origens da escola, quem está comandando, o material didático e quem ensina. Há lugar que engenheiro leciona Teologia Sistemática só porque é diplomado. Ora, deve ensinar essa matéria alguém formado nela, e assim sucessivamente. Então, há absurdos desse tipo por aí, mas há boas opções. Aconselho que busquem as boas escolas e paguem o preço.
Quem tem chamado ministerial, precisa renunciar, esquecer outras coisas. Não pode haver dois sonhos ao mesmo tempo. O que você fizer depois disso só acrescenta à sua bagagem, desde que seja uma faculdade que aprimore a caminhada. Há pastores estudando o que não têm relação com o ministério, por exemplo, Engenharia, ora quer ser pastor ou engenheiro? Agora, se faz um curso de Letras, História, Jornalismo isso ajuda, até Filosofia, com certo cuidado.
Nisso eu sou radical, se tenho uma vocação, então preciso pagar o preço. Fui consagrado novo, eu esperava isso uns 10 anos depois, devido ao estilo da Convenção catarinense, mas eu já me esforçava. Hoje presido uma igreja, tenho vários obreiros jovens que trabalham comigo. Eu louvo a Deus porque não tenho ciúmes de ninguém, graças a Deus. Pelo contrário, eu projeto pregadores. Tenho pregadores jovens que pregam muito e eles ficam nervosos quando estou presente. Eu os coloco para falar e fico lá embaixo. Eu falo com eles: “Vou ficar aqui embaixo na “torcida da fé.”” E a igreja fica de olho em mim, há momentos que eu grito: “Glória Deus!” e toda igreja me acompanha, se eu fico quietinho é porque a situação não está muito boa.
Entrevistadores – O senhor disse que muita coisa mudou e que foi um desafio ir para o Instituto, pois muitos eram contra. Eu pergunto: mudou alguma coisa na Assembléia de Deus? E, se mudou, o que mudou?
Pr. Elienai – Há pessoas que têm visão pessimista, eu sou otimista. Acredito que as mudanças foram para melhor, mesmo com algumas dificuldades. Alguns não entendem por olhar por em perspectiva exclusivista. Imaginam que a identidade da igreja é a exterioridade das pessoas.
Há pregadores novos que não acreditam nisso, mas pregam para ganhar espaço junto a seus pastores, acho isso hipocrisia. Sempre fui um só nesse assunto, não sou melhor que ninguém, tenho muitas falhas, porém nesse quesito sempre fui autêntico. Primeiro não entro nesse assunto não discuto, se me perguntar eu digo “pastor aqui o que se ensina é isso? Então, o Senhor é responsável pelo ensino!” Mas ele não vai saber o meu pensamento.
Há coisas que discordo intimamente. Quando se trata da igreja onde sou pastor, então é diferente, ali sou responsável pelo ensino, fora disso não perco tempo discutindo. Então, penso que mudou para melhor, essa transição histórica tem sido difícil há várias alterações. A minha geração de pastores abriu a porta para os institutos bíblicos, vários pregadores surgiram, abriu também para variação na liturgia e outras coisas. Então mudou para melhor em várias áreas, outras deixam a desejar exatamente porque somos presos a respeito humano, engolimos inteiro por causa disso.
E é melhor respeitar mesmo, pois daqui a pouco a velha geração passa e a outra vem despontando novas estratégias e encaminhamentos para a obra. Acredito que falta paciência às novas gerações, precisam esperar o momento certo, tudo que é precipitado produz mal estar, gera conflitos de opiniões e divide igrejas. Eu trabalho com jovens obreiros e pastores no Brasil inteiro e, a minha palavra é que eles devem se manter fiéis aos princípios sem trair o que acreditam, se há base bíblica, e evitar choques, divisões e outras coisas que vemos com freqüência.
Entrevistadores – Há previsões pessimistas em relação ao futuro da Assembléia de Deus, o Senhor compartilha qual linha de pensamento?
Pr. Elienai – A Assembléia é uma denominação tão forte quanto foram outras em épocas passadas. Quem estuda sociologia descobre que na história das instituições, chega determinado tempo que elas amadurecem e perdem a dinâmica da juventude. A Assembléia de 50 anos atrás tinha uma dinâmica, hoje é a dinâmica da maturidade.
O grande desafio é viver a maturidade sem perder o mover do Espírito na vida da igreja, pois a tendência é nos tornarmos muito racionais. Há pastores não acreditando em mais nada, olham as manifestações dos dons sem o sentido bíblico e histórico que elas têm. No entanto, não sou daqueles que vêem a Assembléia no fracasso total, mas ela não permanecerá no auge, por ser o que é. Ela é tanto quanto foi a Presbiteriana, a Quadrangular, a Metodista e as demais igrejas que foram muito boas, embora tenhamos diferentes opiniões teológicas.
Quando vamos à origem dos metodistas com João Wesley e o prebiterianismo, vemos que eram homens cheios do Espírito Santo, falavam em outras línguas e exerciam os dons do Espírito, hoje são igrejas paradas no tempo, a Assembléia tende a ir pelo mesmo caminho. E não sei se temos tempo para isso. Quando a Assembléia parar no tempo, Deus vai mantê-la e levantar outro grupo. Não acho que Ele esteja preso a denominação. Eu amo e defendo a minha denominação tanto quanto puder, pois faço parte desta geração, sou abençoado por esta denominação.
Mas eu sei que Deus não é refém de denominação alguma, e ninguém é dono da verdade. Naturalmente, a igreja de hoje não é a mesma de quando eu era menino, que engolia heresia como se fosse doutrina. Para ela era como se fizesse parte do prato diário. Não havia malícia, pois o povo era mais simples, não tinha muita escolaridade.
Hoje, todos freqüentam escolas, faculdades. É gente que aprendeu a pensar, raciocinar e não engole qualquer coisa, podem até engolir por respeito ao pastor e a crentes antigos. Isso é válido, tem a benção de Deus, mas essa gente quer mais. Nós precisamos ter resposta para eles, para os seus questionamentos. Eu sou fundamentalista no sentido de que há valores imutáveis. Existem os conceitos mutáveis por serem temporais, por exemplo, não acho que a identidade de uma igreja esteja numa fisionomia de 30, 40 anos atrás.
Acho que ela se identifica por aquilo que crê e não pelo que aparenta. Não é a liturgia que muda a fisionomia de uma igreja o que muda a sua identidade. Elienai Cabral não vai deixar de ser o Elienai quando menino, a diferença é que eu estou mais maduro. Continuo sendo o Elienai, mais velho, mas sou. Esta estrutura é que precisa ser mantida.
Esta é a minha visão. Certos valores, certos fundamentos devem ser mantidos. Já falei em vários ELADs (Evento que reúne líderes das Assembléias de Deus) e em um destes falei sobre como conservar os fundamentos. Muitas pessoas pensaram que eu falaria de roupa, de cabelo, forma de culto, que não pode isto, que não pode aquilo, e foi o contrário o que aconteceu. Vou mostrar os fundamentos da Assembléia de Deus que eu conheço. Quais são as doutrinas fundamentais? Se você ler o “Cremos” em um dos nossos periódicos, ali você vai ver os fundamentos que não podem mudar. Preocupo-me com outros costumes. Aqueles que afetam a moral da igreja, a moral das pessoas e denigrem a imagem cristã naquilo que cremos.
Entrevistadores - O senhor vivenciou vários milagres. Conte-nos algum.
Pr. Elienai - Eu já vi tanto milagres físicos, como também espiritual na vida das pessoas. Tive experiências pessoais fortes com Deus. Eu diria que são as marcas do meu ministério, para me ajudarem naquilo que faço hoje e não me deixam desistir.
Eu diria que uma grande experiência na minha vida, apesar das grandes operações, pois trabalhei com o pr. Bernard (isso não é novidade no meio pentecostal) foi quando já estava com alguns anos de ministério e fui convidado a organizar uma escola teológica num campo de trabalho grande (evitarei usar nomes e locais) e fui alvo de muita maldade, perseguição por ciúme, por inveja. Algumas pessoas exploravam uma fraqueza do pastor local (pois, ele tinha um medo enorme de que se tomassem lugar dele) e denegriram minha imagem.
Minha formação moral e ética foi muito forte fui ensinado a nunca me levantar contra os ungidos em hipótese alguma e nunca fiz isso, entendo que tenho a benção de Deus na minha vida por isso. Mas houve um momento na minha vida que desejei chutar o balde literalmente, comecei a pensar que estava perdendo meu tempo e acabando com minha saúde por causa desse tipo de problema.
Certo dia me aborreci muito, estava muito bravo comigo mesmo, chamei minha esposa, entrei no carro e disse: “Vamos embora, por favor!” Então, ela disse: “Eu
me casei com pastor, e espero que ele agora tenha compostura de se manter!”Eu engoli seco, mas ela estava com a razão. Quando cheguei em casa, fomos nos preparar para dormir, e eu estava tão tenso que ela me deu um chá de camomila. Eu costumo me aquietar nesses momentos, e ela chamando “vamos dormir, vamos dormir que é melhor, amanhã você acorda diferente”, porém me ajoelhei para orar, e não conseguia, a noite estava meio fria. Comecei a dormir pesadamente ali mesmo, ela tentou me chamar, não conseguiu, então pôs um cobertor sobre mim e me deixou adormecido, já debruçado ao pé da cama, tive um sonho. Não sou sonhador, nem acredito em visagem ou em sonhos de barriga cheia que tem por aí, mas sei que o sonho é uma via pela qual Deus fala, creio em visões.
Nesse sonho Deus me levou para uma olaria, tive a impressão de ser aquela de Jeremias 18, o Senhor trouxe à minha mente o que eu podia perceber culturalmente. Vi uma casa rústica e umas águas velhas que vinham de um lugar e entravam por uma calha de água límpida, vi utensílios e máquinas antigas, vi vários tipos de barros, vi o oleiro, mas não via o seu rosto. O oleiro trabalhava quieto em silêncio. De repente, notei que as calhas d’água eram um conduto terminando na grande mó. Esta era molhada pelas águas que passavam em sentidos opostos como um triturador, o oleiro pegava o barro punha calha, a água caía, mas quando chegava na mó amassava e triturava o barro.
Repentinamente, o oleiro de mãos grandes me tomou com roupa e tudo e me jogou dentro da calha d’água e eu me via ali, quis fugir mas não consegui. Percebi que a água me levava e que seria amassado, eu me reconhecia, estava dentro e ao mesmo tempo fora me vendo como num espelho.
Passei por baixo da mó (aquela grande pedra) e ouvi um forte barulho de trituração, a mó gemia, do outro lado o oleiro pegou aquela massa que era eu, mexeu com a mão, levou para um torno de duas rodas, uma era como se fosse uma mesa e tinha um eixo central e embaixo tinha outra roda, essas eram movidas com os pés.
Ele me tomou pôs ao redor do eixo fechou e começou a trabalhar, foi moldando-me, vi minha cabeça e fui ressurgindo. Quando fiquei inteiro não era um vaso genérico, era eu novamente, então acordei. Nesse momento entendi que Deus me mostrava o que fazia comigo naquele lugar. Eu já tinha mais de10 anos no ministério, era pregador e ensinador conhecido nacionalmente, era diretor de uma escola teológica e tinha situações hostis.
Deus, no entanto, mostrou que eu precisava corrigir coisas no meu caráter, personalidade e temperamento. Isto fez a diferença na minha vida, considero um milagre radical. Trouxe novo ânimo ao meu ministério, eu pensava em desistir. O Senhor mostrou que fazia um novo Elienai. Essa experiência marcou muito. Louvo a Deus, pois minha vida está em pé pela misericórdia dEle. Devo muito às experiências de intimidade com Deus.
Eu ia falar nessa Escola sobre a vida devocional do obreiro, nesse assunto falo muito sobre a relação com Deus, fruto da minha própria experiência com Ele, mas fica para outra oportunidade. Eu creio que o sucesso de um obreiro tem a ver com o nível de sua relação com o Senhor, não é baseado em valores humanos, não vem do falar bonito. É muito mais gostoso emitir um conceito que você vive do que falar o que outras pessoas formularam.